Será que aqui eu posso amar?

Um conto por Milly Ricardo


Ser uma fada do tempo traz algumas responsabilidades, dentre elas, seguir à risca todo regulamento de sua casta. Por coincidência, ou não, eu sou uma fada do tempo, nascida de uma fada do amor e um fada da fauna. A casta a que vamos pertencer é definida no momento em que nascemos, nada somos ainda e naquele instante nos tornamos tudo.

O ponto delicado em que me encontro agora é que uma das regras mais importantes destacadas pelo regulamento das fadas do tempo é: É TERMINANTEMENTE PROIBIDO TER RELACIONAMENTOS AMOROSOS COM QUALQUER FADA OU HUMANO. E adivinhe? Eu me apaixonei por uma fada. A criatura mais linda e majestosa que eu poderia imaginar, uma fada da flora. Para ela, se apaixonar não é um problema, já para mim, não poderia dizer o mesmo.

Ser descoberta nesse relacionamento me tornaria uma não-fada e eu, com certeza, seria encaminhada diretamente para um não-lugar, desonrando toda a minha família. Eu e Gardênia nos conhecemos há pelo menos 25 estações. Passamos por todos os treinamentos principais da primeira fase juntas e quando estávamos enfim formadas e poderíamos treinar individualmente, me descobri apaixonada.

Gardênia é delicada, doce e tão pura… Sua pele é quase transparente, suas vestes brancas como neve, e suas asas, as mais belas que eu tive a chance de observar, a mesma tonalidade de seus olhos, esverdeados. Ambos brilhavam, brilhavam a metros de distância e nada parecia ser tão lindo no mundo quanto a união de todas essas características.

Mas, quanta besteira não é mesmo? Eu nem ao menos deveria pensar nisso, nem deveria estar apaixonada por ela. Quanta estupidez. Uma fada do tempo, apaixonada, o que diria o conselho das fadas nesse momento? “Senhorita Sunshine isso é inadmissível, você está sendo transferida imediatamente ao não-lugar”! Com certeza, isso seria o mínimo só por eu estar apaixonada, imagina se descobrissem quantas vezes já nos arriscamos em olhares, toques e carinhos.

Exatamente como faríamos naquele instante. Gardênia e eu nos encontraríamos às margens da cerejeira em instantes para mais um de nossos encontros noturnos. Fazemos isso há algumas estações, eu diria que já estamos beirando a décima estação de encontros. Vivemos esses carinhos, toques, olhares na surdina da noite e sempre nos limites de nosso mundo com o mundo dos humanos, se qualquer coisa acontecesse eu fugiria, talvez Gardênia viesse junto, talvez eu fosse sozinha.

Nunca gostamos de discutir esses pontos, mas talvez era chegada a hora. Afinal, vi seus pais anunciando oficialmente a mão dela em casamento. Qualquer fada, independente de seu gênero, poderia pedir a mão da minha Gardênia em casamento, bastava não ser uma fada do tempo.

Fadas do tempo são proibidas de se relacionar amorosamente pelo alto controle que temos sobre o passado, presente e futuro, além de mudanças climáticas. Possuir sentimentos amorosos por outras fadas podem nos deixar instáveis e proporcionar ao reino das cerejeiras grandes tragédias, como já aconteceu cerca de uma centena de estações atrás, antes do regulamento ser definido dessa forma.

O fada que causou o regulamento chamava Frost, ele e a fada do amor se apaixonaram perdidamente e várias vezes os sentimentos do fada acabaram interferindo de maneira trágica no clima dos dois lados.

Enfim, Sr. Frost muito obrigada por destruir minha vida ao se apaixonar por uma fada do amor há mais de uma centena de estações atrás.

***

Sentada naquela margem, perdida em meus pensamentos, tudo que conseguia pensar era: como eu gostaria de poder viver o que sinto em algum lugar. A parte de mim que não deveria ter sentimentos amorosos batia forte, acelerado, meus olhos se enchiam de algo que eu jamais deveria experimentar, águas de dor. E então, senti a leveza das mãos que mais me acalmavam, era ela, a minha Gardênia, cobrindo meus ombros como um ritual das últimas dez estações.

— Cuidado Sun, você sabe como é perigoso experimentar dessas águas — Gardênia sempre fora muito cuidadosa, e naquele momento senti seus dedos acariciando minhas bochechas de modo a secar as águas de dor que desciam de meus olhos.

— Me desculpa amor. É que eu… eu vi o anúncio de seus pais.

— Imaginei que veria. Não se preocupe, ok? Eu vou me livrar disso. Não estamos mais no século passado. Eu não deveria mais precisar me casar com alguém.

— Sabe que eles vão pedir que se case. Faz parte das tradições.

— Eu quero é que as tradições vão ao inferno. Sunshine, eu amo você, como eu poderia me casar com outra fada?

— Sabe que comigo jamais seria possível casar.

— Mas e se nós tentarmos? E se entrarmos com um pedido ao conselho? E se eles aceitarem que nós nos amamos? — Ao mesmo tempo em que aquilo parecia tentador, era loucura! O conselho jamais daria ouvido a duas fadas de pouco mais de 25 estações de existência. Quem sabe quando estivéssemos beirando a centésima estação nós pudéssemos tentar.

— Gardênia, meu amor, isso é loucura, sabe que jamais dariam ouvidos a duas fadas com 25 estações.

— Mas nós podemos tentar!

— Gardênia, pra você nada aconteceria se negassem o pedido. Mas mudaria minha vida pra sempre. Eu seria destituída, mandada a um não-lugar, eu seria uma desonra à minha família. Eu… — Nenhuma palavra a mais foi dita, as águas de dor começaram a descer com rapidez de meus olhos, o tempo bonito e o céu cheio de estrelas começou a se fechar instantaneamente e a tempestade começou a se formar. Eu pouco liguei, eu estava frustrada, decepcionada. Só queria poder amá-la em algum lugar sem ser uma ameaça a ninguém.

No instante em que a tempestade se formava e as flores da cerejeira começavam a se fechar, Gardênia me beijou. Meu peito explodiu, eu não conseguia entender se de amor, de dor ou de desespero. Mas aquela era a sensação mais esplendorosa que já pude sentir em todas as minhas 25 estações. Gardênia era o amor de minha vida, eu tinha certeza disso, só não via nenhuma chance de podermos viver este amor.

Quando o beijo veio a terminar a tempestade já não estava mais tão assustadora quanto antes, meu peito batia com mais tranquilidade e eu até conseguia ver algumas tímidas estrelas brilhantes no céu.

— Sunshine, talvez eu esteja ficando completamente louca, mas e se abandonarmos tudo isso aqui? Podemos tentar nos adaptar ao lado de lá — Gardênia olhou ao horizonte pós-margem. Ela se referia ao mundo dos humanos. Aquilo com certeza era loucura. Jamais sobreviveríamos lá, era um mundo onde íamos apenas para cumprir tarefas rápidas e jamais nos envolvemos com outras criaturas que não sejam fadas — Você sabe. Apenas precisamos estalar os dedos e teremos forma de humanas, viveremos isso onde não existem essas regras antiquadas.

— Querida, nós não conhecemos nada do lado de lá. Seríamos autorizadas as primeiras tarefas somente 30 estações à frente. Isso é loucura!

— Vamos ser loucas juntas então! Eu me recuso a me casar com uma fada que eu não amo.

— Você pode aprender a amá-la.

— Mas eu não quero! É tão difícil entender?

— Não, é claro que não. Mas ainda é loucura.

— Vamos testar. Nada nos impede de tentar

— Tudo nos impede, querida. Se der errado, isso será um escândalo nos dois mundos.

— A única coisa que sentirei falta de um mundo diferente daqui é de poder ver suas asas brilhando na cor do sol quando você está feliz. Apenas!

— Não acredito que farei isso. Você é completamente louca!

— Nós somos! No três? — Gardênia pegou em minha mão e me olhou fundo nos olhos. Tudo que precisávamos fazer naquele momento era pular da margem e estalar os dedos ao mesmo tempo.

Respirei fundo. Olhei para trás uma última vez, abaixei os olhos para minhas vestes amarelas da cor do sol e então assenti. Em silêncio, apenas com o mexer dos lábios na contagem regressiva, e então vi a minha querida Gardênia, símbolo do amor secreto, dobrar os joelhos para pular, repeti.

De olhos fechados, estalando os dedos e pulando nós tomamos forma de humanas. Aquilo era loucura! Mas no instante em que meus olhos pairaram sob minha querida Gardênia eu sabia que qualquer loucura valeria a pena se estivesse com ela. Deveria ser quase de manhã, o orvalho marcava toda a vegetação daquela bela paisagem. Um grande lago em nossa frente cercado de cerejeiras, nossos reinos. Cada uma dessas árvores era um reino diferente. Viajávamos entre eles com uma poção feita pelas fadas dos entre reinos e quase nunca precisávamos vir ao mundo dos humanos, a não ser para cumprir tarefas específicas ou para fugir do mundo das fadas.

Gardênia vestia uma calça longa que jamais vi em seu corpo antes. Uma blusa branca fininha cobria seu busto, e suas asas já não estavam mais lá. Entretanto, seus olhos continuavam a brilhar na mesma intensidade de antes. A mulher mais linda que tive a chance de observar.

Já sobre mim, percebi estar com uma vestimenta em tons de vermelho. Parecia ser um conjunto de short e regata, muito parecido com as vestes das fadas de treinamento, absolutamente diferente do que eu estava acostumada a usar. Minhas asas amarelas também não eram mais vistas.

— Você tem certeza? Ainda podemos voltar — Perguntei

— Eu tenho certeza. Você não tem? — E abriu o sorriso. O mesmo sorriso que me fez apaixonar. É, eu tinha certeza.

— Eu tenho certeza — E trocando olhares, de mãos dadas e sorrindo pudemos respirar brevemente aliviadas. Ali poderíamos finalmente amar.

Ou não.

O tempo naquele local parecia passar diferente, ainda não sabíamos sobre como falar com pessoas, sobre onde moraríamos, ou o que comeríamos, mas aquilo não parecia nos preocupar nos primeiros instantes. O local parecia um belo parque, e quando o sol estava alto começamos a perceber uma movimentação de humanos intensa.

A paisagem linda que nos rodeava nos fez sentir um pouco mais em casa, era, de certa forma, parecido com o que tínhamos em casa, o detalhe que diferenciava para nós os dois lugares era que ali nós não estávamos fingindo que não nos conhecíamos. Agíamos como se fossemos verdadeiramente um casal, trocamos olhares, carinhos singelos, sorrisos, risadas e muita conversa.

Como era bom poder viver aquilo sem ter medo… Até o momento seguinte. Quando nos sentamos próximas ao lago que tanto achamos bonito, abri meus braços para que Gardênia pudesse se aconchegar ali. A sensação que tinha era que finalmente estava no meu lugar ideal. E foi no instante em que nos beijamos novamente, com o sol brilhando no local mais alto do dia, é que tudo mudou.

Um homem se aproximou de nós gritando, ele berrava como se estivéssemos cometendo um crime. Seu rosto em uma tonalidade avermelhada que amedrontou nós duas. Em uma reação rápida tudo que fiz foi me levantar e puxar Gardênia para trás de mim.

— O que pensam que estão fazendo? Acham que aqui é algum de seus puteiros? Saiam daqui! Deixem de poluir a vista das nossas crianças. Suas vermes imundas! ANTICRISTOS! Vocês vão arder na boca do inferno se não se converterem ao senhor! — E de repente, outra mulher se juntou a ele, uma criança nos braços chorava aos gritos. Gardênia apertava meu braço com força e eu não sabia o que fazer. Não sabia por que estavam nos dizendo tudo aquilo ou o que significavam tantos gritos. Com certeza sua expressão e a altura de sua voz não poderiam ser elogios, aquilo deveriam ser insultos. Será que aqui nós também não poderíamos amar? Será que mesmo aqui onde os humanos dizem que são tão livres, nós não podemos ser quem somos?

Em poucos instantes nós estávamos cercadas por pessoas que gritavam conosco. A água da dor começou a me invadir novamente, senti as mãos de Gardênia tentando me acalmar como sempre fazia quando me via começando a me desestabilizar, mas não foi o suficiente. As sensações de medo, decepção, frustração e desaprovação me invadiram com uma força que jamais tinha experimentado antes.....

Para ler o final aguarde a antologia... Lançamento em 23/09

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