Naquele Banco
Anelize Pina Marques
Sua última visita ao local durou muito mais do que costume, Helena chegou no seu ponto preferido, no banco debaixo da velha cerejeira, e lá ficou por horas. Enquanto estava sentada, brincava com os pés na terra vermelha e na grama, arrastando-os de um lado para o outro. Até que notou uma coisa diferente, algo gelado tocou seus pés. Ao olhar para baixo, teve o encontro com um medalhão, com uma corrente de prata agarrada à uma joia oval, no lugar para por um pequeno retrato tinha uma imagem um pouco ofuscada. Ela pôde apenas perceber que era de um homem, mas estava manchada com terra. Naquele momento, Helena não pensou duas vezes antes de pendurar o medalhão no pescoço, ela teve uma enorme afeição pelo objeto, e com ele seguiu seu caminho para casa.
No dia seguinte, após um exaustivo dia de trabalho, Helena sentiu uma grande vontade de ir para o seu banco no parque. Ela pensava consigo mesma como era possível se sentir tão atraída por aquele lugar sendo que estivera lá em menos de 24 horas. Tentou resistir por alguns instantes, se convencendo de que estava ocupada demais para isso, mas não houve jeito. Quando percebeu já estava naquele banco, o mesmo que se sentava todos os dias. Observando a movimentação de pessoas, os patos sob o lago, o balanço das árvores, e a vendedora de pipocas, percebeu que ainda estava com o medalhão que encontrou no dia anterior. Ela queria dar uma nova olhada na jóia, e assim que começou a tirar do pescoço, Helena vê uma sombra que vem por trás. No mesmo instante ela olha de relance para trás e vê um homem que caminha lentamente embaixo das cerejeiras.
Helena solta o medalhão, que escorrega ligeiramente para dentro de seu casaco e se esconde entre o tecido de sua roupa, e pergunta para o rapaz o que ele faz ali tão perto dela. O homem simplesmente dá com os ombros e diz que está apenas caminhando. Helena então percebe que foi um pouco rude e impulsiva ao abordá-lo, e o convida para sentar. Ele aceita, e então os dois passam o resto do fim de tarde jogando conversa fora, ali naquele banco, ao anoitecer se despedem e cada um segue seu caminho. Chegando em casa e ainda revivendo seus momentos de conversas com o homem no lago, Helena se dá conta de que não perguntou o nome do sujeito, e fica com raiva dela mesma, pois um encontro com uma pessoa tão gentil e divertida não poderia simplesmente sumir em sua memória. Mas já é tarde, a jovem mulher aceita o erro e segue em frente com sua rotina.
Chega então o fim de semana e assim que Helena acorda, o primeiro pensamento que ela tem é de ir para o parque do lago, com muito entusiasmo e expectativa de encontrar o homem do lago, mas para ela, era simplesmente para revê-lo e descobrir o nome do rapaz, sem outras intenções. Ela levanta, faz seu café da manhã e logo sai de casa com o destino que vocês sabem. Chegando lá, Helena passa pela vendedora de pipoca e dá um alegre bom dia, que logo é retribuído pela senhora. Após alguns instantes, a moça percebe uma sombra por trás dela, ela já sabe o que é - ou melhor, quem é - e se vira rapidamente, abre um sorriso e diz: “Bom dia, até que enfim apareceu!”. O homem fica um pouco surpreso com a disposição dela, e se senta ao seu lado, naquele banco, e ali ficam trocando histórias, piadas e boas conversas.
Em um certo momento, durante alguma das conversas que tiveram, Helena olhava para o rapaz e pensava que ele era uma boa companhia, ótima na verdade. E então passa pela sua cabeça: “E se ele fosse minha eterna companhia?”. Ela faz uma breve análise sobre sua vida dos últimos anos e nota que há tempos não tem uma pessoa que possa acompanhá-la nos lugares e, olhando ali diretamente para aquele rapaz tão cativante, que a fazia rir e se interessar pelos assuntos mais aleatórios possíveis.
Depois desse dia agradável, Helena e o homem do lago estavam sempre se encontrando, naquele mesmo lugar, naquele banco. Poderia ser de manhã ao sol nascer, fim de tarde ou até mesmo de noite, mas toda vez que Helena ia para o parque do lago ele estava lá, o homem que ela ainda não sabia o nome, e também depois de algum tempo não sentiu necessidade de descobrir, pois o que os dois tinham era algo muito leve e singular, ela o conhecia, apesar de não conhecer sua identidade. Semanas se passam e a história se repete. Encontrar os dois visitando o parque do lago, sentados naquele banco virou algo mais corriqueiro do que encontrar as próprias cerejeiras no parque. Eles aproveitavam a brisa fria que balançava as árvores, comiam pipoca da senhora vendedora, caminhavam descalços sob a grama. Para eles, qualquer coisa para se fazer lá era a melhor parte do dia, pois era o momento em que estavam se divertindo juntos.
Helena chegava em casa após esses encontros com um gracioso estado de espírito. Ela estava muito animada com sua nova companhia e passava o dia todo pensando em encontrar o homem do lago novamente. Um dia, ao terminar seu café da manhã para sair trabalhar, lembrou de seu medalhão, então correu para seu quarto e pegou a joia que estava em cima de sua cômoda e pensou: “Vou usá-lo hoje, e mostrar para ele o que encontrei embaixo daquele banco”. Com essa ideia, pendurou-o no pescoço e seguiu seu dia normalmente, foi ao trabalho, fez suas tarefas diárias e no fim do dia partiu rumo ao lago para encontrar o rapaz.
Ao chegar, logo corre para seu lugar favorito de infância - que agora era favorito também pelo fato de ter conhecido uma pessoa especial - e se senta naquele banco para aguardar o homem. As horas passam e nada da sua companhia diária aparecer, Helena levanta e caminha ao redor daquele banco sem parar, fica na expectativa de a qualquer momento o rapaz chegar. E nada. Ela começa a se preocupar com o sumiço dele que nunca se atrasava. Pensa que fez algo de errado no dia anterior e que ele não quer mais vê-la.
Se você quiser ler o final deste conto e os demais textos da antologia "Às Margens do Lago" aguarde o lançamento no dia 23/09.

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