Mais um suicídio no lago






Estava linda com a camisa do tecido

Delicado

O crucifixo

no peito

e a pele do busto macia como cetim.

Na coroa das pálpebras um olhar abstraído

e submerso na nébula melancolia.

Uma noiva

na veste encarnada

sorri

para o registro fotográfico.

Capturo a essência dela:

vazia, pequena.

Triste alegria dessa gente pobre,

medíocre, convencional.

Olhos brilham anel de pedra.

Coração é precioso assim?

O céu um branco-frio-triste.

Estiagem sopra da margem

e patos surgem da liquescência serena,

deslizando no espelho d’água.

Ciclistas formiguinhas atravessam a margem,

faróis pronunciam a fumaça preta dos motores.

Prédios cinza rebocam o céu de triste monotonia

Um véu sobre a parede soerguida ondula com o vento.

Tratores escavam e não encontram nada,

nada,

entulho,

coisas,

lixo.

 

Ela vestiu meu moletom, tão linda.

laço seu pescoço, enclavinhamos os dedos e atravessamos a ponte.

Inalo fumaça cinza-alumínio

do cigarro

enquanto ela olha abstraída

na neblina interior.

Pergunto:

Bem?

Nada não. Nada...

Sempre o nada, disse.

Ela sorri sem palavra com a nébula dos olhos buliçosos na paisagem.

Parque do Lago gosta?, Perguntei, e ela

mergulha olhar e

gosto não!

Fecha os olhos

como se quisesse flutuar,

virar pluma,

pena,

murmúrio,

átomo, e

Detesto, afirmei,

subindo o cercado,

virando o norte

de ponta-cabeça.

Ela,

virada,

ri,

lindamente

e alfinetes de sol cortam

a paisagem

e agulhas de chuva

fazem anéis nos espelhos d’água.

Moedas de luz cintilam nas folhas das árvores.

Ficamos abraçados na beira do Lago,

sobre a estiagem e o tépido do sol.

As sombras derramando-se sobre o horizonte

fazia a cidade mais fria,

mais cinza.

Precisa ir. Te levo, disse, mas

não vou voltar, respondeu peremptória (a voz embargada)

e uma lágrima assalta os olhos

no horizonte lusco-fusco.

Apalpo,

medeio,

acaricio a carne do rosto,

a lágrima faz concha em minha mão

e interrogativo medito por que e

A vida inferno é, me dita,

olhar desdenhando o horizonte.

Desse podemos inferno sair e no sol habitar, sorrir pessoas ver, faculdade entrar.

Abandonou olhar horizonte e

desdenhou olhar em mim,

na faculdade duas vezes entrei, disse:

Direito, depois jornalismo.

No primeiro: pessoas insensíveis.

No segundo, alunas chorando, tirando fotos para professor.

Nojo fiquei

e triste cidade que se suicida não assistindo jovens quando

 vez alguém se joga do bloco, sempre alguém desolado no corredor, e

 ‘we are strong’,

 nos pulsos

 até as palavras assolaparem a dor interna gigantesca.

Ela largou tudo:

Sonho.

Trabalho.

Faculdade.

Crescer não via mais,

só pra baixo,

descendo as escadas.

Dizendo tchau pro sonho

que também morre.

Atravessamos o bosque,

como Adão e Eva,

mas no inferno.

Carregando peso de mundo

que não tem pena.

Peso

Terrestre

Flutua

amargura

chove

choro.

 

Giroflex

Polícia,

bombeiro,

ambulância,

IML,

todo mundo.

Curiosos,

flashes,

selfies.

Trator ergue concha

e na rede,

corpo

de ponta cabeça,

amorfo,

sem vida.

Tirado

Da água, e

Menina sem nome

que saiu nos jornais

e todo mundo,

geral excitação,

queria saber sobre o caso

da menina

que tirou a vida

se jogando no Lago.

Os patos deslizam no espelho d’água, inconscientes.

Noiva na veste encarnada sorri para o registro fotográfico.

Sorriso afável, desafogado, insensível, asséptico.

Chove choro.

Mais um suicídio no Parque do Lago.   

Comentários

  1. Muito tocante, é de uma realidade que bate a nós.
    Ouço muitos relatos de pessoas que tem esse sentimento. A dor nmais profunda e desesperadora.
    Ouvir também me causa esse sentimento de angustia.

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