Águas escuras



Vitor Maques

"Eu adoro esse parque!"

É o que Dante pensava enquanto pegava o isqueiro branco do bolso de seu jeans surrado, e acendia seu cigarro com dificuldade. Ele costumava sair de casa para fumar de noite e aproveitava para caminhar no Parque do Lago. Apesar de não ser mais um adolescente há algum tempo, ainda morava com sua avó e ela não aprovava o seu vício. Ele não se importava. Nem com sair de casa para fumar e nem com o fato de sua avó não aprovar o que fazia.

E de fato, adorava aquele lugar, na infância o tinha como um grande parque de diversões, na adolescência ia com seus amigos para fazer inutilidades, mas atualmente não ia com a pretensão de se divertir e também não ia mais com suas amizades, já que elas diminuíram consideravelmente com o passar dos anos. Seu objetivo agora ali era descansar a cabeça e apreciar o local.

O lago escuro se estendia por quase todo o parque, era como um grande espelho de sombras, refletia a luz do luar, ou as luzes acesas. Às vezes escutava sons estranhos que provavelmente vinham de cigarras, ou até de outros animais.

Mas de longe, seu lugar preferido ali era entre as cerejeiras e, naquele dia, mesmo sem a luz do sol, estavam especialmente belas. A mistura dos tons de rosa e branco fazia com que o jovem sentisse, pelo menos por alguns instantes, que estava em qualquer outro lugar, menos em sua cidade, e era algo que lhe fazia bem.

Continuou andando enquanto fumava, estava frio mesmo entre a primavera, e às vezes ele colocava o cigarro na boca para esfregar uma mão na outra em uma tentativa falha de se esquentar. Enquanto caminhava decidiu sentar-se entre uma das cerejeiras e o lago, era uma distância segura, mas com uma visão privilegiada.

Começou então a pensar em sua vida. Dante trabalhava em um estábulo, limpando dejetos e dando comida para belos cavalos, não era um ótimo trabalho, nem um ótimo salário, no entanto era tudo que havia conseguido até ali, e a beleza majestosa dos animais ajudava. Todos perguntavam se ele estava satisfeito com o que tinha conquistado e, apesar dos problemas, não via motivos para reclamar, ele gostava de sua vida do jeito que era, muitas vezes era a pressão das pessoas que fazia com que ele se sentisse culpado, não era algo que vinha de dentro.

Perdido em seus pensamentos, olhou para frente e então se perguntou: "imagine a quantidade de coisas que esse lago já não presenciou?".

Ao pensar nisso, notou algo diferente, percebeu que nos reflexos das luzes no lago havia uma que não correspondia à luz do luar, ou as luzes do próprio parque, era amarelada e não muito grande.

Mas o jovem não se preocupou, muitas vezes percebia coisas que outras pessoas não iriam se importar. Seu cigarro já estava quase chegando no limite, então mesmo sem apagar, jogou-o no lago. Levantou, tentando limpar sua calça de qualquer folha ou sujeira mais aparente, e então saiu pelo mesmo lugar que tinha chegado ali. No entanto, quando já tinha passado pela ponte de madeira, e já estava em direção a rua, ele sentiu um aroma.

Já tinha sentido aquele cheiro antes. Quando era criança, sua mãe costumava fazer perfumes caseiros. Fazia todos os processos, desde cultivar as flores, até a parte mais química. E havia um deles em especial que ele sempre se lembrava, uma mistura de limão siciliano e madressilva. Depois que sua mãe morreu, ele nunca mais havia sentido aquele aroma em nenhum lugar. Sentia muita falta dela e sentir aquele cheiro naquele instante era ao mesmo tempo incrível e triste.

Por conta disso, resolveu ficar mais um tempo por ali, estava frio, mas não havia sinal de chuva e o vento estava suportável. Resolveu ir para o parapeito da ponte de madeira e ficou olhando para baixo, o lago seguia o seu fluxo, mas quando virou seus olhos para o lado, notou que havia a silhueta de alguém o olhando, estava na entrada esquerda da ponte, a mesma que dava para o restante do parque.

Estava tudo muito escuro, e a pessoa não parecia usar roupas. Dante ficou completamente em choque e endureceu, não conseguia prestar atenção em mais detalhes e nem sequer respirar. O seu cérebro lhe deu duas opções naquele momento: correr ou desmaiar. Com muito medo e angústia, tentou esquecer a imagem pavorosa, fechou os olhos e correu. Sabia o caminho dali até a saída do parque, era curto e sem obstáculos, contudo quando estava a poucos metros de chegar ao final, um pouco antes da calçada que dava para rua, ele abriu os olhos.

A "pessoa" estava na sua frente, realmente não usava roupas e era bem maior que Dante (que já era bem alto), a sua pele era diferente, feita por escamas brancas e levemente brilhantes, o seu cabelo estava molhado, mas não muito, era como se tivesse saído do banho, tão ou mais escuro que a própria noite e extremamente longo. Estava em pé, encarando Dante com um sorriso, seus dentes eram mais afiados que de um ser humano comum.

“Pode roubar o que quiser, só me deixe vivo”, disse Dante com os olhos arregalados e com as mãos pro alto. Nunca foi conhecido por sua coragem.

A criatura riu, como se fosse a piada mais engraçada que tinha ouvido em muito tempo.

“Não quero roubar meu jovem, relaxa!”, sua voz não era nem muito grossa e nem muito fina, começou a andar e seus passos eram extremamente leves, quase como se flutuasse ao invés de caminhar, e então passou por Dante, que neste momento não conseguia nem mesmo se mexer. "Me chame de Arien", disse antes de continuar andando em direção ao parque, seus cabelos balançavam com o vento e seu perfume era exatamente aquele que sua mãe produzia.

Estava mais do que com medo, queria ir embora e sabia que deveria, no entanto, por mais que tentasse seus pés não saíam do lugar, assim como o seu olhar que seguia Arien, onde quer que fosse.

Então, sem efetivamente querer, Dante seguiu-o, ou ela, não era possível identificar, tinha uma aparência extremamente andrógina. Eles dois caminharam pelo parque por alguns minutos, não trocaram sequer uma palavra nesse momento.

Seguiram por uma pequena estradinha entre as árvores e Arien se sentou em um pequeno banquinho.

"Sente-se comigo Dante, aliás que nome bonito o seu" , disse olhando fixamente nos olhos do jovem.

O medo ainda era presente naquele momento, mas depois de algum tempo, conseguiu exprimir suas primeiras palavras:

"Como sabe o meu nome? E está muito frio, porque está sem roupas?", suas palavras saíram trêmulas, não gostaria que tivessem saído daquela forma.

Arien olhou de cima a baixo o corpo de Dante e soltou um sorriso de canto:

"Sei o nome de todo mundo que vem ao parque, e você vem sempre aqui com seu vício nas mãos!", Arien apontou para o bolso do jovem, onde estava o cigarro. "Já sobre as roupas, não vejo necessidade de usá-las, além disso vivo no lago, não seria possível nem mesmo que quisesse."

"O quê? No lago? Não acho que isso possa ser verdade."

"Jovem Dante, você já deveria ter entendido que não sou como todo mundo", seu olhar era muito profundo e por vezes fazia com que o jovem ficasse constrangido.

Realmente, a criatura estava longe de ser como outras pessoas. Dante se sentou com Arien no banco e a única luz disponível no lugar vinha de cima, com isso a pele de Arien brilhava ainda mais. Era com certeza uma das coisas mais lindas que Dante havia visto na vida e seu medo começou a diminuir expressivamente, não era possível sentir medo de algo tão belo.

"Mas o que você é então? No mínimo, uma pessoa doida ou perigosa", Dante estava cético e curioso ao mesmo tempo, não tinha como seguir em frente sem saber mais.

"Não acho que sou uma pessoa doida, já quanto à perigosa…", sorria absurdamente, toda vez que fazia isso Dante só conseguia olhar para os dentes, mais afiados que de um tubarão. Seu medo voltou um pouco nesse momento, queria correr dali.

"Mas não se preocupe, já poderia ter feito algo se quisesse. Enfim…", suspirou, "sei que pode não parecer, mas essa é a forma mais próxima de um ser humano que consigo chegar. Sou um axgul, vivo nas águas daqui do parque.

"Axgul? O que é isso?"

"Um ser das águas, não de rios, ou mares, de lagos principalmente."

"Então você é uma sereia ou um tritão?", disse Dante, com um tom levemente irônico.

Arien pela primeira vez mudou a expressão de seu rosto para um semblante muito mais sério. "Não deboche meu jovem, sereias e tritões são extremamente fortes e criaturas formidáveis, mas não sou como eles, apesar de parecer em alguns aspectos."

"Isso não existe, não sou idiota", comentou Dante. Apesar de tudo, não conseguia acreditar naquilo, parecia mais uma história infantil que qualquer outra coisa.

"Já imaginava que não ia acreditar em mim. Venha comigo, preciso te mostrar uma coisa", disse Arien, já se levantando.

Dante pensou rapidamente que era sua chance, andaria com ela até onde quer que fosse e na primeira oportunidade, sairia correndo.

A criatura começou a caminhar, passou entre algumas árvores, até chegar entre as cerejeiras, Dante estava logo atrás, ansioso e angustiado, procurando a forma perfeita de fugir, até que chegaram à beira do lago, exatamente no mesmo lugar em que Dante havia sentado mais cedo, e então com movimentos leves, Arien pulou sem hesitar.

Dante ficou curioso, mas percebeu que era hora, enquanto ela havia pulado, ele correu na direção contrária. De repente, sentiu um grande cansaço, não aguentou e se sentou no chão mesmo, precisava respirar. Este não era um cansaço comum, seus músculos doíam, suas pernas estavam bambas, até que sentiu o aroma cítrico mais uma vez e percebeu que não conseguia correr para fugir e sua energia voltava apenas quando pensava em caminhar até o lago novamente.

Quando chegou perto das águas, Arien estava lá, olhando-o fixamente, e somente sua cabeça estava para fora d'água, sendo iluminada pela luz do luar e com seus cabelos escorridos. Seu rosto estava diferente, maior e muito mais amedrontador, sua boca estava enorme, como se quase chegasse em suas orelhas, já seus olhos estavam inteiros em um tom amarelado.

"O que acha, Dante? Não humano o suficiente para você?". Sua voz era a mesma.

Dante agora não conseguia se mover novamente, mas dessa vez não sentia que estava em choque, nem que era um comando de seu próprio corpo, se sentia atraído como um ímã em direção de Arien. Ambos se olhavam fixamente, até que percebeu que a criatura no lago, ainda que amedrontadora, continuava absurdamente linda.

Arien sorriu com sua boca gigante, neste momento todos os seus dentes ficaram à mostra e novamente veio para mais perto, nadando até a beira, e quando chegou ali começou a andar, com suas pernas surgindo aos poucos.

"O que acha de pularmos na água juntos, Dante? Sei que sabe nadar e vai ser divertido, eu prometo". Sua voz era extremamente sedutora, era quase como um sussurro e parecia ansioso para que o jovem fosse junto dele! A criatura estendeu as mãos para Dante, que percebeu agora que sua pele se mexia levemente, como se estivesse viva.

O jovem sentia que não deveria, pensava em sua avó em casa, em seus pais que haviam morrido, nos cavalos majestosos que via todos os dias em seu trabalho, até mesmo em seus passeios no parque todos os dias. Mas foi, ele queria ir.

Tirou suas roupas e ficou completamente nu ao lado da criatura, no entanto não sentia frio. Quando tocou nas mãos de Arien, sentiu que as pequenas escamas que envolviam sua pele realmente se moviam, era uma ótima sensação.

Os dois foram andando pela beira do lago e, ao pisar na água, percebeu que estava gelada e, por um momento, relutou em continuar. Arien manteve-se ao seu lado e, com a luz do luar e o azul escuro da noite, olhou mais uma vez para seu rosto, o cabelo molhado ia até sua cintura, seu olhos eram de um amarelo bem forte, e apesar de tudo até ali, foi quando percebeu que sim, não havia resquício algum de características humanas, ele sabia que estava do lado de algo sobrenatural.

Os dois enfim caminharam para dentro da água. Dante sabia nadar, mas o lago estava tão escuro por dentro como era por fora e Arien não estava mais ao seu redor. Olhava de um lado para outro, até que no meio da escuridão viu a criatura em seu habitat natural, sua pele não brilhava somente com a lua, na realidade brilhava ainda mais intensamente na água, de forma que era possível ver o seu formato.

Sua cauda não era mesmo como a de uma sereia. Era inteiramente branca, formada por pequenos espinhos e não havia limite entre ela e seu corpo, era como simplesmente a continuação de sua pele. Seus olhos brilhavam um pouco, e a iluminação que seu corpo tinha fazia com que fosse possível enxergar seu cabelo nas águas escuras, em seu pescoço havia guelras, que se moviam lentamente com a água. Repentinamente enquanto o jovem observava, Arien foi embora, nadava rápido, quase como se dançasse.

Naquele momento o jovem voltou na superfície para respirar um pouco, e depois mergulhou novamente tentando procurar a criatura. Foi o mais fundo que seu corpo permitiu, mas não conseguia respirar o suficiente para ficar procurando por muito tempo, mas nesse momento quando olhou de relance para trás, lá estava Arien. Majestosa como sempre.

Queria ficar ali para sempre, somente observando, porém, era humanamente impossível, precisava da superfície de novo. Quando decidiu voltar, Arien havia pegado suas pernas, e o puxou rapidamente.

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