O pato do lago
Adriano Calzada
Um parque é para o dia ensolarado o que Romeu o fora para Julieta: um clichê romântico, que encanta não pela novidade, mas pela altivez das ações. Bastam os raios dourados tocarem as flores para lhes conferir tom e fragrância, despertar os pássaros numa melodia áurea, remover o manto branco que cobre o gramado, preparar, enfim, a cena e atores para uma nova peça diurna. No entanto, nem só de sóis vive o parque. Quando sobe a noite e as estrelas pontilham o céu, o frio assume o lugar do calor, expulsando os mais ávidos frequentadores de parques - vagabundos, apaixonados, salteadores e animais selvagens. Detenho-me neste último para contar o causo de um par de aves que, por sua biologia curiosa, já impressiona; incapazes de voar ou mergulhar por longos períodos, os patos estabelecem-se nem como pássaros nem como peixes, revelando seu ecletismo. Mas a versatilidade é também a terra da confusão.
No horário em que não há raios na atmosfera e a escuridão é absoluta, os parquefílicos recolhem-se em seus lares para banquetear e descansar. Contudo, nosso casal de patos mudou sua programação. Nesta sexta-feira, irão atrasar seu sono; vão assistir a um filme e comer pipoca. Crede, a cinematografia das aves não é menos abundante que a humana; inclusive, a fama de dezenas de roteiristas e diretores cairia se a humanidade soubesse que suas obras não são genuínas, mas cópias literais do cinema aviário. Mas isso é assunto para outra conversa.
Unidos menos pelo amor que pela necessidade de aquecerem-se do frio cortante, nossas aves conectam-se ao Wi-Fi do Parque do Lago com seu dispositivo, abrindo o catálogo do Patoflix para selecionar algum filme em voga. Cabe dizer que a fêmea é de espírito impositivo e austero, enquanto o macho é resignado e, até certo ponto, medroso.
Entre as recomendações do aplicativo, a pata cogita Ceifa Amaldiçoada, não sem protestos do pato, que afirma categoricamente a energia negativa que o título trará. A pata ignora, iniciando-o assim mesmo; sob o tu-dum da introdução e o céu enluarado, penas e bicos permanecem de olhos e mentes fitos à tela.
Os primeiros minutos de qualquer filme de terror são de contextualização e ceva para a desgraça que virá; o casal que opta por mudar de cidade e estado estava desentendido há um bom tempo e seguia discutindo. Já na introdução o pato estava inquieto, suando frio e com um olho cerrado, como se o susto fosse menor quanto menor fosse a exposição à cena; pois a simples menção ao terror causava ao pato calafrios. A cada movimento brusco, a pata dava-lhe um beliscão, ordenando-o a concentrar-se no filme, deixando-a em paz.
Quando as nuvens descobrem a lua cheia, alumiando o parque num tom cinzento, o filme chega a apoteose. Uma fina camada de água que evaporara durante o dia condensa-se, estendendo uma nuvem de neblina por todo o lago, reduzindo a visibilidade para quase nula. O que era tronco, se esfumaça; o que era ponte, se esfumaça; o que era verdade, vira mentira.
Os patos, enxergando não mais que a distância dos bicos e compenetrados na tela, esquecem seu instinto de sobrevivência e não notam o silente aproximar de um bicho narigudo e esguio, da cor do fundo do lago, que buscava não o entretenimento do filme, mas encher a própria barriga. Há três dias sem comer, fareja alimento em tudo o que move; ao encontrar dois patos suculentos aninhados e desatentos, calcula, mede, aprecia, estica os membros posteriores e arqueia a coluna, sente o sangue pulsar nas veias, as pupilas dilatarem e posa em ataque. (...)
Se você quiser ler o final deste conto e os demais textos da antologia "Às Margens do Lago" aguarde o lançamento no dia 23/09.

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