Escolha a si mesmo
Nathalia Mendes
O frio é a primeira coisa que sinto ao acordar. A segunda é o incômodo de ter usado a mochila como travesseiro. Ainda desnorteado me sento no gramado e constato que a soneca depois da aula evoluiu para sono profundo. Me alongo e sinto um arrepio pelo corpo, a brisa do parque tão agradável ao entardecer agora arrepia os pelos de meu braço e acelera minha percepção.
Assim escuto um barulho baixinho e percebo que os fones caíram de minhas orelhas enquanto dormia. A playlist que foi trilha sonora de meus sonhos ainda toca insistente uma música qualquer. Semicerro os olhos por conta do brilho da tela e só tenho tempo de ver a hora: 23:55 antes do celular descarregar completamente.
“Merda”, digo em um suspirar. Abraço meus joelhos ao sentir a temperatura cair mais um pouco e tento pensar no que fazer… com certeza perdi o horário do ônibus, mas e se eu chamar um uber? Não tem como chamar um uber sem celular… Ainda existem táxis? Onde consigo um? Vai ser muito caro?
Me levanto ainda sem uma solução e me ponho a caminhar em direção a saída do parque. É esquisito estar aqui de madrugada, as luzes amareladas contrastam com a água do lago que mais parece um reflexo sombrio do céu estrelado.
Outro arrepio percorre meu corpo e diminuo a velocidade de meus passos ao observar a imponência das árvores que agora parecem dormir tranquilamente. Chego na ponte de madeira e não consigo evitar o ranger de meus dentes ao protestarem pelo frio congelante, questiono-me em silêncio a probabilidade da temperatura ter caído ainda mais e já na metade da ponte, considero correr para me aquecer quando escuto um badalar de sinos que parece vir da água.
Me apoio na madeira e inclino meu corpo para tentar enxergar algo naquele abismo profundo. Nada, nem mesmo meu reflexo. Suspiro em frustração e acabo por derrubar um de meus anéis que no silêncio da noite ressoa audivelmente ao entrar em contato com a água. Me afasto decepcionado com a má sorte e dou um pulo ao perceber um homem formalmente vestido - com direito a cartola e bengala - parado a alguns passos de mim e me olhando diretamente.
Sem reação, o silêncio se instala entre nós até ele soltar o ar impaciente e dizer:
- E então?
Pisco rapidamente sem entender e opto por continuar meu caminho.
- Ahn… tenha uma boa noite.
Sigo andando até perceber que por mais que me movimente não saio do mesmo lugar.
- “Tenha uma boa noite”? - o sujeito de cartola diz levantando a sobrancelha - Você me invocou aqui, não pode simplesmente ir embora.
- Invocar? Eu não invoquei ninguém não - digo parando de “andar” - droga, como se acorda de um sonho? - sussurro em confusão
- Então o que fazia no lago? - apontou para a borda da ponte em que eu estava debruçado alguns momentos atrás
- Ai! - solto depois de me beliscar - Não funcionou…
- O que não funcionou garoto?
- Eu não acordei…
- Não é um sonho. Agora me diga logo o que quer.
- Eu estava vendo a água - respondi sua primeira pergunta
- Ah é? Então por que me deu o anel? - abriu a palma da mão e pude ver o brilho da jóia
- Caiu sem querer… - digo tentando pegar o anel de volta só para perceber que ainda não podia sair do lugar
- Muita coincidência, não acha? Você aqui me presenteando com um anel no dia do aniversário da minha morte
- Da sua… o quê? - grito assustado tentando novamente correr, mas falhando miseravelmente - Droga, por que eu não consigo sair do lugar?
- Da minha morte - abro a boca para questionar mais uma vez, mas me mantenho em silêncio quando ele ergue o dedo como quem não quer ser interrompido - Não quero, nem vou falar sobre isso - completa ríspido - Agora sobre não poder sair do lugar é fácil, você está preso a mim até fazer seu pedido.
- Você é tipo um Gênio? - pergunto resignado
- Não ouse me comparar a eles, garoto.
- Então o que você é?
- Depende do século, já me chamaram de mago, feiticeiro, bruxo, demônio…
- Não gostei desse último aí… - digo aflito - o que você faz?
- Não venha com religiosidades para cima de mim - ele diz resoluto - Eu faço o que eu quiser, vivo viajando por aí no que você chamaria de dimensão espiritual, ou limbo, ou sei lá. Basicamente eu só preciso de uma fonte natural que este ano calhou de ser esse lago. De tempos em tempos aparece alguém como você me oferecendo alguma coisa em troca de um pedido, já recebi ouro, pedras preciosas… teve até quem tentou me contactar com sangue, o que eu particularmente achei desnecessário.
- O que as pessoas geralmente pedem?
- Eu atendi um pedido por século, então até agora foi: dinheiro, vida eterna, dinheiro e um guarda-chuva.
- Um guarda-chuva?
- É uma longa história.
- Ah… ok?
- E aí, o que vai ser?
- Olha, não é por nada não, mas eu já assisti filmes demais para acreditar que meu pedido não vai ter consequência. O que aconteceu com os outros?
- Não é da sua conta.
- Mas…
- Mas o que? Pede logo algo que eu quero seguir com minha morte aqui na tranquilidade.
- Não tenho ideia…
- Você está desconfiado, não está?
- De um homem com cartola e bengala na ponte de um parque de madrugada que disse já ter sido chamado de demônio e de ter recebido sangue como pagamento? Me levanta algumas suspeitas sim.
- Não disse que aceitei o sangue, disse que me ofereceram - ele rebate convicto - Então não quer nada?
- Quero muitas coisas, mas não sinto confiança em você não.
- Vai deixar pendente?
- O que acontece se eu deixar pendente?
Para terminar de ler este conto acompanhe o lançamento da Antologia Às Margens do Lago em 23/09

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