O homem
Thiago de Oliveira
Passou por mim um homem. Não parei para checar a cara, ou se havia alguma cara. Mas era um homem. Que passou por mim. Definitivamente.
Eu também passei por ele.
Antes disso passaram outros, é verdade. O casal com cachorros. Outro casal com cachorros. O casal com cachorros e um filho. A jovem. O fitness sem camisa. E sem máscara. O jardineiro.
Passou também aquele conhecido. Aquele tipo singular de conhecido. Que você não sabe se cumprimenta ou não. A pior espécie de gente para se encontrar.
Mas nenhum deles passou, ficou e fragmentou-me como aquele homem.
Com que sentidos vi aquilo? Está claro para mim que não foi com a visão. Com o tato e o paladar muito menos, não cheguei a tocá-lo. Meus ouvidos estavam fechados. Tenho esse dom de fechar os ouvidos. Nada ouço quando não quero ouvir.
E aquele lago estendia-se mundo afora, refletindo o céu. Em algumas ficções, costuma-se atribuir aos espelhos uma característica de portal para outros mundos. Na verdade, espelhos são artefatos do mundo que refletem tão somente o próprio mundo. E se há algum portal, na realidade, é para dentro.
O homem que passou olhava-me e ria como se escondesse de mim a mais grotesca zombaria. Como se possuísse o universo escondido no bolso da calça. Como se só a ele pertencesse a verdade.
Corri. Acompanhado pela sombra do homem, fui em busca de um refresco. Sábado é dia de caldo de cana no parque. Engoli selvagemente o líquido, tentando fazer com que aquela bebida tocasse meu coração e lavasse minha alma. Impura alma. Contaminada com a passagem daquele homem.
Ganhando tempo. O terror ainda estava por vir.
Depois do refresco, resolvi sentar-me ao píer para olhar os patos.
A água tremeluzia, com preguiça; as pessoas andavam ao redor daquele lago como se alguma coisa fizesse sentido.
O sentimento de fragmentação intensificava. (...)

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