Pulsos






TATIANE LAZZAROTTO

Vinte anos depois de embarcar no navio que prometia aos refugiados uma nova vida, Abigail encontrou-se por acaso com pessoas vindas da cidade onde nasceu. Reconheceu, de cara, a língua materna. Depois, chamou-lhe a atenção o acento pronunciado no final de algumas palavras, as frases cantadas e expressões que ouvia quando menina. Emocionada, dirigiu-se sussurrando ao casal, que aguardava num cruzamento a chance de atravessar a rua.

– Ei! Por acaso vocês são de... – um estampido a interrompeu.

Coincidência ou não, não era totalmente seguro pronunciar suas origens em voz alta. Abigail aceitou como um sinal do destino e se calou. O casal, um homem e uma mulher jovens, receou. Talvez tivessem sido imprudentes ao conversarem na rua. A atmosfera ainda era de tensão, mesmo com a possibilidade iminente de queda do regime em sua terra natal. Os dois eram recém-chegados, mas conheciam a instrução principal: desconfie de qualquer um.

A mulher que os observava, cinquentenária e de cabelos longos e grisalhos, poderia ser uma inimiga. Paralisados, buscavam arquitetar telepaticamente uma chance de fuga. Pressentindo o terror do casal, Abigail antecipou-se. Com movimentos calculados, mostrou o pulso direito, deixando ver a marca tatuada, comum a todos os refugiados. Lana soltou um suspiro de alívio, o que também tranquilizou o marido.

Com um aceno de cabeça, Abigail convidou-os a segui-la. Era arriscado fazer reuniões de qualquer espécie, mas ela estava ali há duas décadas e conhecia os meandros do refúgio. Os dois a acompanharam sem pensar muito. As reações intempestivas, embora desaconselhadas, eram a única chance de desviarem-se minimamente do protocolo a que foram destinados: comer, trabalhar, dormir. Com o máximo de discrição, com o mínimo de êxtase.

Duas ruas depois, chegaram a uma portinhola que Abigail forçou para que os três entrassem. Depois de fechar a porta, a anfitriã começou:

– Estamos seguros aqui. Eu me chamo Abigail, posso mostrar a vocês minhas identidades. Creio que somos do mesmo lugar, pelo menos foi o que me pareceu pelo sotaque – a voz dela tremia, não conseguia controlar a emoção de falar com conterrâneos pela primeira vez após um longo tempo. O regime, assim como a fuga dele, potencializava qualquer encontro como uma forma de pertencimento.

Ronaldo, marido de Lana, balançou a cabeça afirmativamente ao ouvir a mulher dizer o nome da cidade. Era um homem alto, de 30 e poucos anos, um pouco fora de forma, mas que possuía no corpo marcas de ex-atleta. Lana era uma jovem pequena, de cabelos curtíssimos e vermelhos, os olhos castanhos e vivazes. Mais falante, ela contou que chegou com o marido há dois meses. Vinham do lugar onde Abigail nasceu e de onde ela partiu quando adolescente, após a tragédia familiar que arrastou ela e o pai para outro estado.

Nos últimos anos, Lana e Ronaldo tentaram resistir ao regime junto ao grupo político ao qual se filiaram, mas, após uma ruptura interna, uniram-se à última massa de refugiados que deixava o país. Ninguém sabia qual seria o próximo passo do ditador.

Abigail teve uma repentina curiosidade pela situação do lugar que unia os três. Nesse momento, a pose rígida da mulher foi dando lugar a uma adolescente empolgada, atropelando Ronaldo e Lana com suas palavras confusas.

– Eu morava numa rua em que as quadras eram coloridas... Depois nos mudamos para perto de um grande ginásio. Eu frequentei uma escolinha, perto da catedral. Eu e meus pais costumávamos tomar sorvete de morango no verão e recolher as pinhas caídas no chão, das araucárias na praça em frente e – interrompeu a torrente de lembranças quando percebeu que Lana e Ronaldo se encaravam desanimados.

– Nada disso existe mais, Abigail – Ronaldo respondeu, cabisbaixo – infelizmente essas coisas se perderam no espaço. Algumas há algum tempo, outras recentemente. Foram muitos anos...

– Você não se lembra de mais nada? – Lana arriscou.

A mulher os fitou, enternecida. Percebia a vontade que tinham em devolvê-la alguma fagulha de saudade. Era comovente encontrar quem habitou o mesmo lugar que você no passado. Uma forma de reencontrar-se. Há décadas escapou dessas lembranças, evitou até mesmo a possibilidade de retornar à cidade como visitante, quando o regime ainda acenava no horizonte, quando os outros ainda minimizavam suas cruéis consequências. Por muitos anos, Abigail fugiu de saber qualquer coisa que remetesse à cidade de sua infância e adolescência, porque essa era a forma de apagar memórias dolorosas, o ano mais amargo de sua vida.

Quando encontrou Ronaldo e Lana, porém, reacendeu nela a vontade de recuperar uma parte de si que foi feliz. Antes do regime, antes de tudo. Trêmula, arriscou:
Para continuar a ler este conto aguarde a publicação da antologia completa 22/09

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