O Primeiro e Último Passeio da Arya
Larissa Martins
É unânime: o pôr-do-sol guarapuavano vai lhe arrancar um baita de um sorriso. É colorido, rosado, laranja ou amarelo e, para quem vem de fora (alô, universitários!), é um abraço. Isso mesmo! O entardecer daqui parece ser macio, quentinho, agradável como um abraço e bonito como você nunca viu. Vai lhe render boas memórias, eu garanto. De tantos que eu presenciei, vou escolher um para compartilhar com vocês e esse, em específico, me ensinou sobre a coragem de viver em uma casa nova – mas de uma forma bem fofinha.
Arya é a minha gatinha. Assim como eu, saiu do interior para tentar a vida debaixo da imensidão do céu de Guarapuava. No meu caso, eu contava com pouco mais do que uma boa companhia, um apartamento sem mobília, nenhum tostão no bolso e muito trabalho da faculdade para entregar. No caso da Arya, ela não contava com muita coisa além do seu 1kg no corpinho de filhote. Então eu pensei que seria uma brilhante ideia levá-la para passear no Parque do Lago, o mais famoso ponto turístico da cidade, mas não contava com um detalhe precioso que eu viria a descobrir: Arya, como um bom gato de apartamento, ODEIA sair de casa. A civilização é o seu pior pesadelo.
Saímos de casa, eu, Arya e Gustavo (meu namorado). Assim que descemos os degraus, a pestinha já demonstrou os seus sinais de protesto de dentro da caixinha: os miados, patadinhas, vocês vão me pagar, vão se ver comigo, humanos!, ela devia pensar. Não lhe demos ouvido e seguimos firmes em direção ao nosso destino. Quando chegamos no parque, a água e as árvores banhadas pela calma luz de fim de tarde em contraste com a barulheira dos carros no horário de pico, abrimos a caixinha e esperamos pelo melhor: uma Arya faceira, exploradora, curiosa e desbravadora como uma verdadeira heroína felina. O que presenciamos destoou completamente das nossas expectativas.
A gata esbugalhou os olhinhos amarelos, assustada com o mundo exterior. Deu um, dois, três passinhos, cheirou a grama, recuou, miou, tudo isso e mais um pouco. Foi uma das coisas mais covardes que eu já vi. Tentamos fazê-la passear, brincar, descobrir, mas nada: Arya é a filha da mãe mais medrosa que eu conheço. Nossa aventura havia sido frustrada, pelo menos... Até um cachorro gigante aparecer em cena. O cachorro não passava de um bobalhão farejador que queria brincar, então se aproximou, todo alegre. Mas Arya, que estava com as patinhas na grama e que quis nos provar, finalmente, que não era boba nem nada, se tornou parruda. Eriçou os pelinhos, arrumou a postura e rosnou o seu melhor rosnado ameaçador de filhote para cima do cachorro, que devia ter pelo menos trinta vezes o seu tamanho. Eu não soube o que fazer além de rir e pegar a lutadora no colo, que se agarrou no meu ombro e enquanto a gente se afastava do pobre cachorro (que só queria brincar, coitado!) continuou rosnando com toda a sua feracidade, olhando certeira para trás, para a vítima da situação.
Naquela altura já sabíamos que o rolê tinha “miado”. Recolhemos nossas coisas, guardamos a fera na jaula e partimos em retirada. Cruzamos a ponte do lago sob o famigerado pôr-do-sol inesquecível. Quando lembro desse evento (“O Primeiro e Último Passeio da Arya”), além de rir, eu não consigo evitar pensar que tanto a gata quanto essa cidade me ensinaram muito sobre enfrentar os meus medos de cara, por maiores que sejam. Esse não é um texto de autoajuda ou motivador, por mais que pareça (eca!). É um relato de uma universitária mais medrosa do que um filhote de gato.
Se você vier a Guarapuava um dia, por favor, dê um passeio no Parque do Lago e me diga se o cachorro gigante ainda está plenamente são depois dos rosnados mortais da Arya. Eu duvido muito.
Esta crônica está na íntegra, para conferir os demais textos da antologia "Às Margens do Lago", o lançamento é dia 23/09.

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