O fantástico mundo das fanfictions
O processo de escrita começa muito antes da primeira palavra no papel. Normalmente, grandes autores são valorizados por isso, mas e se você estiver escrevendo sobre personagens criados por outros autores? É possível que sua escrita seja ridicularizada: vão dizer que essa história não o torna escritor de verdade ou que está se apropriando da criatividade dos outros. Seus leitores talvez sejam chamados de leitores "não-realmente-leitores", como diz a escritora de fanfics Beatriz Belo. Mas será que essas críticas são justas?
Muitas das justificativas que encontrei foram sobre a falta de criatividade, o plágio e o “roubo” de uma história. Mas seria mesmo falta de criatividade? Imagine ler um livro inteiro com uma história fechada e imaginar uma realidade completamente diferente da proposta do autor original. Criar um mundo totalmente novo não faz necessariamente alguém mais criativo do que outro. Afinal, autores de fantasia com mundos mágicos e irreais não são considerados mais autores do que os de romance tradicional, certo?
A ridicularização desses escritores pode gerar uma desmotivação e fazer possíveis escritores desistirem de escrever e os leitores sentirem vergonha do que leem. O importante nisso tudo não seria incentivar a escrita e a leitura?
Independente se é Machado de Assis com “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Cassandra Clare, que inclusive teve seu início como escritora de fanfics, inspirado no universo de Harry Potter, para só então trazer ao mundo “Os Instrumentos Mortais”, Babi Dewet, que começou como escritora de fanfics da banda McFly para só depois trazer personagens originais ao mundo, ou Beatriz Belo, escritora de fanfics e autora de “Illecebra”. Seria bastante hipócrita dizer que o importante é ler e minutos depois julgar a literatura dos outros, certo?
A história das fanfics começa com um fã de Star Trek em 1960, sonhando com os seus personagens favoritos em realidades alternativas. Até que um dia ele percebeu que poderia escrever sobre esses sonhos, usar os mesmos personagens e lançar para a comunidade fanática da série. Foi aí, por meio da revista Spockanalia, criada por ele, que ainda em 1968 tivemos os vislumbres das primeiras fan fictions como conhecemos hoje.
A era de ouro das fanfics no Brasil aconteceu mesmo com a popularização da internet e de plataformas como sites, blogs e das redes Orkut e Tumblr. Agora, as histórias já não eram apenas sobre livros, séries ou filmes. As fan fictions já eram diretamente ligadas a artistas, fossem eles cantores, atores, apresentadores ou qualquer outra categoria de celebridade. Toda comunidade do Orkut possuía algum membro escrevendo e publicando as famosas webnovelas, que eram as fanfics renomeadas.
O grande problema do Orkut era que, nas páginas criadas, o acesso às histórias era difícil, normalmente os capítulos se perdiam com facilidade em meio a tantas publicações. Foi por isso que muitos mudaram para o Tumblr, que serviu para os autores hospedarem em suas próprias páginas apenas as suas histórias, porém o foco da plataforma ainda não era apenas esse e encontrá-las ainda era uma missão difícil.
Os sites e blogs até eram uma boa ideia, mas o alcance deles não era muito grande. Sendo assim, por mais um tempo, o público ‘fanfiqueiro’ estava carente de uma plataforma que pudesse oferecer apenas fanfics.
Foi em 2009 que tivemos os vislumbres do primeiro site direcionado unicamente para fanfics, o fanfiction.net. O site saiu do ar há pouco tempo mas abrigava, só de Harry Potter, mais de 800 mil histórias. Em seguida, tivemos O Fanfic Addiction que em seguida se transformou em Fanfic Obsession. Um pouco mais para frente, em 2011, o Naya! Fanfiction chegou para competir. E naquele momento as fanfics já haviam dominado a internet. Não existia uma plataforma sequer que não possuísse fanfics.
Para o surto dos ‘fanfiqueiros’, as rixas entre plataformas era real. Todos os anos apareciam novos sites com focos parecidos ou iguais, entreter os leitores de fanfic. Com o passar dos anos, os telefones foram evoluindo, os smartphones chegaram e então as plataformas que conseguiram criar aplicativos para essas histórias ganharam o coração de todos. O Social Spirit e Wattpad são exemplos disso, hoje são os dois sites com a maior popularidade na categoria e que abraça grande parte dos ‘fanfiqueiros’.
Com toda a repercussão atingida por essa “nova” categoria de leitura, as editoras começaram a ficar de olho em possíveis histórias originais criadas dentro dessas plataformas, fossem elas com personagens originais ou fanfics propriamente.
No Brasil, isso levou um certo tempo até se popularizar de verdade. Quando as fanfics nos Estados Unidos já haviam conquistado até os produtores de Hollywood, as grandes editoras brasileiras começaram a enxergar esses autores. E é aí que eu te apresento as histórias de fãs mais famosas do mundo.
Você sabia que 50 Tons de Cinza originalmente era uma fanfic? Exatamente, uma fanfic sobre o universo Crepúsculo.
A série Os Instrumentos Mortais eram fanfics sobre nada mais, nada menos, que Harry Potter. Chocados?
E, por último, temos After, uma fanfic sobre a ex-banda One Direction. Foi escrita no Wattpad, transformada em livro e recentemente em filmes.
No Brasil, temos alguma produção originalmente de fanfic publicada por editora, ou quem sabe que tenha virado filme? Sim e não. As editoras grandes têm prestado bastante atenção nos autores que publicam fanfics ou até livros originais nas plataformas digitais. Dificilmente eles têm suas histórias originais publicadas, mas vez ou outra recebem convites para escrever conteúdos exclusivos. Porém, em editoras menores, a possibilidade já é bem maior, como é o caso de Júlia Braga.
Júlia Braga é brasiliense, e autora de Querido Bebê, livro esse que ganhou o prêmio Wattys 2016 - Edição de Colecionador. Este é um prêmio da própria plataforma Wattpad para homenagear escritores que publicam em sua plataforma e acaba transformando sua obra em um sucesso, se já não era. O livro Querido Bebê já acumulava mais de 4 milhões de leituras, quando decidiu publicar a versão física. Após muita insistência do público, a brasiliense abriu um financiamento coletivo no Catarse, um site para ajudar pessoas a arrecadarem valores para projetos.
Neste caso, ela vendeu os livros por lá, na intenção de garantir a venda. Logo na primeira semana, ela já conseguiu arrecadar R$10 mil, com a meta final de R$19.800 reais. Sendo assim, o financiamento arrecadou cinco mil reais a mais do que o previsto por Júlia inicialmente. Isso tudo aconteceu em 2019 e hoje o livro continua disponível na editora MapaLab.
Mas aí resta a dúvida, como essas pessoas chegam nas plataformas digitais de publicação gratuita? Para Júlia Braga, autora de Querido Bebê o que a fez criar coragem foi encontrar outra pessoa publicando online.
“Eu era uma leitora fantasma dessa menina, ela publicava sob um perfil anônimo, e eu percebi que podia fazer isso também. Se todo mundo odiasse o que eu tinha escrito, eu apagava e fingia que não tinha sido eu! Mas felizmente deu tudo certo!”, concluiu ela.
Querido Bebê, Julia Braga.
Mas como nem tudo são flores, a publicação independente e principalmente de fanfics trazem consigo um peso enorme de que você não é escritor e o leitor de fanfics não é leitor. Uma desmotivação completa para novos autores e leitores deste estilo de obra. A escritora Beatriz Belo falou sobre isso em nossa conversa: “Sempre existiu (e ainda existe) um estigma ou um padrão de pensamento. Até hoje, dependendo do seu círculo de amizades ou de influenciadores que você consuma, escrever fanfic é bobagem adolescente e ler fanfic é perda de tempo”.
Perguntei a ela justamente sobre a motivação e o pontapé inicial para começar na escrita: “Depois de muito escrever e pouco publicar, decidi voltar a publicar minhas fanfics e mostrar ao público que essas ideias são erradas, e que sim, sou escritora, e os leitores são sim, leitores. Acredito que o pontapé inicial pra eu perder o medo foi ter amigos que acreditam no meu potencial”.
Illecebra, Beatriz Belo. Fanfic disponível no Wattpad
As editoras nacionais ainda demonstram resistência e certa cautela em investir tanto em autores independentes com início em histórias originais quanto em autores independentes com início em fanfics. O cenário é bastante esperançoso para ambas as escritoras. Mas, tudo parece ainda ser um caminho lento e demorado, mas quem sabe em algum momento tenhamos o tão sonhado espaço das fanfics em grandes editoras.
Se você se interessou pela publicação nessas plataformas acesse:



Adorei q vcs abordaram esse tema, pois a fanfic ainda é vista com maus olhos mas são delas q surgem muitos escritores
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